Sem hesitar nem um momentinho, Pereira, como gostava de ser chamado (por causa da imponência de um nome tão dolorosamente comum e naturalesco), acompanhou com os olhos a sacolejada que as saias coloridas de Selma faziam a cada passo lento em direção à porta. Parecia um aproveitar-se sórdido em saborear a visão traseira da moça comportada, enquanto ela lia desavisada um artigo em revista feminina - queria impressionar o namorado na cama.
A pontinha de sentimento cafajeste botava-o a suspirar; queria fazer-se notar por sua canalhice calva suada de funcionário de repartição. Por andar sonhando muito com cobras e serpentes coloridas, Pereira quis jogar no bicho e arranjou um número com o Sodré. No dia em que ganhou a bolada - cobra, claro! - o homem comprou um espaço no jornal agradecendo a Santo Expedito e, logo depois, inventou pra todo mundo da repartição que tinha começado um esquema de pirâmide.
Selma detestava-o, fazia cara de nojo quando via passar aquele corpinho redondo morto de calor num paletó escuro e sapatos com algum salto - e continuava baixinho!. O desprezo foi passando a piedade e, depois, admiração, quando ela ouviu (sem perceber a curiosidade ousada) uma conversa de Pereira com a mãe, que aparecia de vez em quando na repartição pra levar bolo de fubá no café da tarde. A moça apertou os olhinhos assim que a velha puxou a orelha do filho e, logo que viu umas lágrimas parecendo açúcar no rosto de Osvaldinho, engoliu uma risada maldosa e teve vontade de chorar também.
Por ter uma mãe assim, Pereira seguia com o hábito de depravar com o olhar o caminhar de Selma que, cada vez mais animada, vestia saias com motivos berrantes, só pra ver se atraía (por pena) a admiração sacana do seu protegido fraterno.
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2 comentários:
Muito legal! Observação em escala exponencial. Continue assim!
Que reviravolta!
Meu preferido.
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