13.12.05
uma heresia só
pedro, fornido, sobranceiro, vinha do alto da escada e gritava, com ar pesado: PRÓXIMO ! ! !
ele tinha orelhas gordas e todos os que se vinham confessar imaginavam baixinho como podia ser que o porteiro do céu tivesse orelhas obesas.
-- conferencista de nutrição francesa para a juventude irlandesa, comeu a irmã aos 14 anos, matava passarinho com espingardinha de chumbo, diretor da biblioteca nacional... ok, pode passar, mas deixe os livros no guarda-volumes.
o porteiro confiscava os livros porque não tinha o que fazer à noite, quando descansava, então, lia. se tivesse livro de sacanagem era melhor ainda - mas só para que ele pudesse pesquisar para os sermões, claro.
pedro colecionava selos e gostava de curtir a vida; até escreveu assim, num anúncio de jornal, num momento de solidão: que queria alguém que fosse alegre, atlético e gostasse de curtir a vida (ou: sacerdotolho lirical procura: mulher que goste de mozart, silêncio e sodomia).
era um pouco carrancudo, sério, tinhas os seus princípios e, embora deixasse passar alguns falsificadores (por causa dos selos), não gostava nada de pedófilos. por causa disso apanhou de muito padre na porta do céu.
pretendia, quando se aposentasse fazer uma banquinha para vender velhos artigos de luxo no primeira mão (sonhando): "vendo livros da biblioteca nacional, guardachuva da mary poppins, oscar de melhor ator 2001, manta sagrada e máquinas do tempo que deram errado".
um dia a vigilância sanitária veio e fechou os portões, porque algumas pessoas da fila reclamaram de ratos nos pastéis vendidos pelo feirante gabriel no carrinho que anunciava uma promoção interessante (dois pasté por três real e ganhe uma salvação de brinde).
a verdade é que pedro era um homem de negócios, profissional sacro-liberal. abriu um cinema ao lado do grande toalete celestial (hoje apresentando: manuscritos de sófocles. coroinha paga meia). como todo homem de negócios, exausto, morto de tanto imposto e de tanto sonegar um pouco.
foi assim, cansado, que pedro recebeu uma proposta - no dia em que madre tereza chegou com passe livre e não quis saber de conversa:
-- pedro, descanse um pouco, deixe a duodécima missa de mozart para amanhã. . . essas horas canônicas vão acabar com sua pele e deixá-lo com cabelo branco. bora fermentar licor.
- é preciso de um muquifo quente para fermentar esse troço... tereza, meu amor, vá lá no porão conversar com o coisa-ruim. . .
então foi, fazer licor de chocolate e misto de maionese pra vender na praia.
(assinado: o vila e eu)
30.10.05
em tempos.
Todos os dias, pela manhã, Dona Escarlatina sentia dores enigmáticas que brotavam de seu peito como quando era forçada a degustar a massa mais rica da cidade sob a vigilância de crianças sujas da rua. Para amenizar o sofrimento buscou auxílio que não lhe pudesse custar mais do que metade de uma nota de cem e, por isso, radiante, marcou presença avassaladora em uma livraria do subúrbio, devorando qualquer sobrenome garantido de alcova ou estante de trintonas cujos relógios biológicos as apavorassem.
Compareceu: elegantérrima, Maria das Dores, corada e rejuvenescida após tratamento intenso de verão com a Dra. Glória da clínica Spasso, ao coquetel de lançamento de Onde é que eu fui parar?, mais nova obra de Alcir Bufo, renomeado psicanalista e autor de estouros da auto-terapia.
Dona Escarlatina é um nome que me parece cair muito melhor, de forma que Maria das Dores sempre ofegante, apesar da pouca pressa, procurando onde decotar mais os seus trajes concebidos em alfaiatarias para gorduchas, soasse mais como uma alcunha para Sofredora e a mulher não era a vítima e mais uma destruidora! Perambulando pelos cantos da cidade com vestidos esvoaçantes misteriosos ela aparecia nas visões noturnas de cada marido descuidado, cujo bigode se balançava doidamente quando ela passava. É claro que as esposas fingiam não notar – muitas tinham ódio macilento e outras, mais curiosas, até achavam alguma graça naquilo tudo e esperavam o momento certo para sugerir brincadeiras sórdidas.
Era uma mancha de volúpia, como gostava de imaginar-se. Dona Escarlatina, arrebatadora, tinha tanto seio quanto desejasse um batalhão inteiro do exército e a carne se suas coxas serviria impecavelmente uma horda de guerrilheiros que tivessem se escondido por três dias nas florestas sêcas.
Um estrondo, rapazes.
Escândalo: Maria das Dores, descuidada, deixa aparecer o fundilho nesta festa, após já ter o rosto aquecido pelos calores da bebida. Ao fundo, os olhares de cobiça dos senhores da alta sociedade – que causaram muito tumulto à admiração das jovens damas de respeito.
Ela compreendia a sua função social; era o fim das noites solitárias dos rapazotes iniciantes e, para isto, deixava propositalmente uma fresta na janela do cômodo onde banhava-se diariamente; a fenda mais escancarada que já houve. Carlinhos, Alfredinho, Zequinha, Alfonsinho e todos os que um dia foram rapariguitos compartilharam daquele portal maravilhoso. Até que um dos garotos, por demais agitado, de tão feliz decidiu contar à mãe o presente da Maria das Dores. Nesta parte de nossa história é que se deve esquecer a escarlatina – Senhora Piedade. Como uma prostituta, assim é que se via Senhora Piedade a partir de então, cujos apelidos ultrapassavam todos os limites aceitáveis de cordialidade, não era senhora e tampouco piedade, era Maria, a puta.
- Muito obrigado, Neto. (dizia um, atordoado pelo fim do costume)
- Olha, vê que agora vai ficar muito mais criativo! (esse era o otimista, que mais tarde descobriria sua homossexualidade)
- Um dia a das Dores me convidou pra tomar chá com bolachas e… (este, o mentiroso)
- Ora, pervertidos! Não creio que tenham mesmo se aproveitado disto! (mais um, o hipócrita)
Enjaulada numa procissão individual, enfeitada como Maria Madalena, a puta, Maria, a outra puta, caminhava tranquila, as bochechas e o colo magnificamente corados, o traseiro ostentado respeitosamente, as unhas pintadas de vermelho-vinho, um olhar muito sábio escancarado no rosto. Segurava duas malas cheias com todas as suas coisas mais preciosas – lingeries bonitas, o retrato dos pais, roupas de algodão (para o calor) e de lã (para o frio), sapatos de rua e de alcova, robe de chambre amarrotado pela paixão, cartas de tantos amantes!, um cantilzinho repeto de uísque barato e sua poesia estampada em papéis amarelados.
- Adeus, que ainda há muito para amar.
26.10.05
hein?
- Ora, ora, Daniel, deixe de ser hippie e vá tomar um banho.
pronunciamento oficial
27.9.05
Alegria
19.9.05
poeira morta
Ele deixou a janela com os cotovelos marcados e se arrastou com dificuldade ao sofá, suspirando longo como quem abandonou uma grande oportunidade ou esqueceu o bolo no forno para queimar. As suas idéias não paravam de girar e o dia inteiro tinha sido um grande sacrifício que não se podia sentir, impressionante como a gente fica tão cansado de ter que trabalhar as sessenta horas semanais que gasta todo o tempo livre com o tédio.
Os dedos dos seus pés se espremiam e esticavam sem intervalo, com aflição dos tiques que o relógio fazia sem piedade de ninguém. A visão do teto não agradava muito, lembrava os serviços pequenos que sobravam, o vencimento do aluguel por chegar, a culpa, a mediocridade, três pratos de trigo para três tigres tristes. Não faziam pausas os pensamentos tolos, ao contrário, cada final de frase ia se confundindo com outra e, em menos de um minuto, do lamento por causa da sorte era feito o belo piscar de olhos da vizinha do trinta e um.
Depois, ao telefone:
- Você tem café aí?
- Tenho, traz o filtro? - a voz sonolenta do outro, amigo de infância e vizinho, igualmente atarefado em divagações aleatórias completamente banais.
- Por quê é que a gente tem que acordar tão cedo, hein?
- Como é?
- Oito horas, quem definiu que o dia começa às oito? É muito cedo pra estar acordado.
- Mas hoje é feriado, cara.
- Tem leite aí?
- Tem, mas traz o filtro.
Nem os números no elevador colaboravam com a falta de vontade do rapaz. A conversa ao telefone atormentou ainda mais os seus sentimentos. Esforçando-se por andar depressa, entrou sem bater no apartamento do amigo.
- O precisar fazer as coisas é que me ilude e me deprime.
- Trouxe o filtro?
- Aqui, faz bem forte, tá? Põe umas cinco colheres de pó. Pouca água.
- Não sei nem que horas são, passei o dia comparando os bolores daquela minha parede infiltrada.
- O constrangimento dos afazeres, a minha ira e a minha preguiça...
- Vamos fazer um catálogo dessas coisas, que aflição, você falando bonito só porque é feriado.
- Pular de um penhasco, é por isso que fazem essas coisas; rapel, tirolesa, imagina a sensação de suicídio. Deu uma risada fixa, sentiu o cheiro de café e sorriu leve. - Luís, teu café é o melhor.
- Diretamente de Colômbia, amigo. Depois coloca um sapato e vamos sair, beber na rua com os cachorros.
Não respondeu, virou os olhos com um brilhozinho, apertou a boca e, erguendo os braços, bocejou feliz.
12.9.05
Sono
Passei a manhã recortando folhas novas de jornal e a tarde ignorando os âncoras engravatados, que me cansam de ter que ficar um pouco mais triste e quieto no fim das crianças mortas de fome e os muros da guerra sabendo que há quem ganhe medalhas sem que se compreenda nada - apenas se noticie.
Me pergunta a que vim, trouxe um pouco de ar fresco, não vou falar nada nada de nós. Eu tinha imaginado uma valsa na sua escada de mármore; quinze mil holofotes pendendo a partir do mofo do nosso teto e, ainda sim, Nina (como alcunha odiada) seus olhos não querem se desfazer das minhas saias roubadas das suas pernas frias.
Agora enquanto fechava as cortinas pude sentir as suas mãos pesadas e tive saudades de todos os nossos animaizinhos soltos como que fogo na vegetação seca e você não percebe nenhum deles! Todas as décadas que gravaram as suas letras em mim cantando melodias feitas às pressas e seguindo coreografias desconexas. Não vê que não há palavra dita para você que não se acompanhe de um outro par de frases enfeitadas?, necessário que lhe chamem a atenção.
9.9.05
Vigia
A pontinha de sentimento cafajeste botava-o a suspirar; queria fazer-se notar por sua canalhice calva suada de funcionário de repartição. Por andar sonhando muito com cobras e serpentes coloridas, Pereira quis jogar no bicho e arranjou um número com o Sodré. No dia em que ganhou a bolada - cobra, claro! - o homem comprou um espaço no jornal agradecendo a Santo Expedito e, logo depois, inventou pra todo mundo da repartição que tinha começado um esquema de pirâmide.
Selma detestava-o, fazia cara de nojo quando via passar aquele corpinho redondo morto de calor num paletó escuro e sapatos com algum salto - e continuava baixinho!. O desprezo foi passando a piedade e, depois, admiração, quando ela ouviu (sem perceber a curiosidade ousada) uma conversa de Pereira com a mãe, que aparecia de vez em quando na repartição pra levar bolo de fubá no café da tarde. A moça apertou os olhinhos assim que a velha puxou a orelha do filho e, logo que viu umas lágrimas parecendo açúcar no rosto de Osvaldinho, engoliu uma risada maldosa e teve vontade de chorar também.
Por ter uma mãe assim, Pereira seguia com o hábito de depravar com o olhar o caminhar de Selma que, cada vez mais animada, vestia saias com motivos berrantes, só pra ver se atraía (por pena) a admiração sacana do seu protegido fraterno.
23.8.05
manhazinha besta
ela guardava uma gravura imantada na porta da geladeira que representasse o negro dos seus olhos, mas, sabe, já era dia vinte e era melhor se tentasse meditação indiana (não conseguia pensar em nada e já tinha se perguntado a razão da distração com a pintura das unhas, o feitio das sobrancelhas, se no final não a fazia mais bonita).
talvez aquilo de não acordar sem motivos fosse até bom, mas, primeiro, cecília com cara de lua mastigou um pacote inteiro de negresco acompanhado de leite desnatado (como é que alguém troca isso por leite de soja ? água por água, prefiro a da vaca), refestelou-se ao lado de nicolás falando francês e dormiu.