Todos os dias, pela manhã, Dona Escarlatina sentia dores enigmáticas que brotavam de seu peito como quando era forçada a degustar a massa mais rica da cidade sob a vigilância de crianças sujas da rua. Para amenizar o sofrimento buscou auxílio que não lhe pudesse custar mais do que metade de uma nota de cem e, por isso, radiante, marcou presença avassaladora em uma livraria do subúrbio, devorando qualquer sobrenome garantido de alcova ou estante de trintonas cujos relógios biológicos as apavorassem.
Compareceu: elegantérrima, Maria das Dores, corada e rejuvenescida após tratamento intenso de verão com a Dra. Glória da clínica Spasso, ao coquetel de lançamento de Onde é que eu fui parar?, mais nova obra de Alcir Bufo, renomeado psicanalista e autor de estouros da auto-terapia.
Dona Escarlatina é um nome que me parece cair muito melhor, de forma que Maria das Dores sempre ofegante, apesar da pouca pressa, procurando onde decotar mais os seus trajes concebidos em alfaiatarias para gorduchas, soasse mais como uma alcunha para Sofredora e a mulher não era a vítima e mais uma destruidora! Perambulando pelos cantos da cidade com vestidos esvoaçantes misteriosos ela aparecia nas visões noturnas de cada marido descuidado, cujo bigode se balançava doidamente quando ela passava. É claro que as esposas fingiam não notar – muitas tinham ódio macilento e outras, mais curiosas, até achavam alguma graça naquilo tudo e esperavam o momento certo para sugerir brincadeiras sórdidas.
Era uma mancha de volúpia, como gostava de imaginar-se. Dona Escarlatina, arrebatadora, tinha tanto seio quanto desejasse um batalhão inteiro do exército e a carne se suas coxas serviria impecavelmente uma horda de guerrilheiros que tivessem se escondido por três dias nas florestas sêcas.
Um estrondo, rapazes.
Escândalo: Maria das Dores, descuidada, deixa aparecer o fundilho nesta festa, após já ter o rosto aquecido pelos calores da bebida. Ao fundo, os olhares de cobiça dos senhores da alta sociedade – que causaram muito tumulto à admiração das jovens damas de respeito.
Ela compreendia a sua função social; era o fim das noites solitárias dos rapazotes iniciantes e, para isto, deixava propositalmente uma fresta na janela do cômodo onde banhava-se diariamente; a fenda mais escancarada que já houve. Carlinhos, Alfredinho, Zequinha, Alfonsinho e todos os que um dia foram rapariguitos compartilharam daquele portal maravilhoso. Até que um dos garotos, por demais agitado, de tão feliz decidiu contar à mãe o presente da Maria das Dores. Nesta parte de nossa história é que se deve esquecer a escarlatina – Senhora Piedade. Como uma prostituta, assim é que se via Senhora Piedade a partir de então, cujos apelidos ultrapassavam todos os limites aceitáveis de cordialidade, não era senhora e tampouco piedade, era Maria, a puta.
- Muito obrigado, Neto. (dizia um, atordoado pelo fim do costume)
- Olha, vê que agora vai ficar muito mais criativo! (esse era o otimista, que mais tarde descobriria sua homossexualidade)
- Um dia a das Dores me convidou pra tomar chá com bolachas e… (este, o mentiroso)
- Ora, pervertidos! Não creio que tenham mesmo se aproveitado disto! (mais um, o hipócrita)
Enjaulada numa procissão individual, enfeitada como Maria Madalena, a puta, Maria, a outra puta, caminhava tranquila, as bochechas e o colo magnificamente corados, o traseiro ostentado respeitosamente, as unhas pintadas de vermelho-vinho, um olhar muito sábio escancarado no rosto. Segurava duas malas cheias com todas as suas coisas mais preciosas – lingeries bonitas, o retrato dos pais, roupas de algodão (para o calor) e de lã (para o frio), sapatos de rua e de alcova, robe de chambre amarrotado pela paixão, cartas de tantos amantes!, um cantilzinho repeto de uísque barato e sua poesia estampada em papéis amarelados.
- Adeus, que ainda há muito para amar.