17.2.08

Herança

A carta dizia:
Tenho pavor de morrer jovem. Não é por causa dos sonhos precocemente interrompidos, dos planos que foram arrasados, dos filhos que não foram feitos, das sementes nunca germinadas. Se eu morrer cedo, minhas coisas ficarão abandonadas e serão inevitavelmente investigadas por aqueles que eu deixaria. Todos os meus cadernos serão cruelmente violados com intenções inspiradas pelas saudades. Milhares de páginas, preenchidas de pensamentos tolos, centenas de meus desenhos escandalosos, todas as confissões que tentei disfarçar em personagens supérfluos de histórias inúteis, cada lamento que procurei misturar em metáforas pobres - nada repousaria sem o exame de olhos inquietos; tenho certeza de que não haveria respeito pelo meu silêncio fúnebre. Que imagem restaria de mim? Ainda assim, não tive coragem de queimar um rascunho sequer.

Foi o único papel que Rita, comovida, salvou do incêndio.

7.9.07

Sem jeito

As maiores aflições de Caio faziam parte de um universo simples das pessoas comuns. Ele nunca sabia para que direção deveria girar a torneira da água quente (aliás, já era para ele muito complicado adivinhar de onde viria a água morna, mesmo com as indicações claras de F e Q em letras pretas em fundo branco), irritava-se diariamente com a ordem correta em que deveria deixar os interruptores para que as luzes da sala de estar, do hall e da escada se apagassem ou acendessem simultaneamente, frustrava-se com a loteria que parecia vestir a meia ao pé adequado, zangava-se de todo, porque as chaves nunca descansavam no mesmo lugar.
Ele era daqueles que, preocupados, avisavam às aeromoças de que não sentiam-se capazes de realizar os procedimentos auxiliares necessários à abertura da saída de emergência localizada ao centro da aeronave em caso extraordinário.
Caio jogava na loteria em anos bissextos, em época de eclipse solar sempre perdia o horário e amargava com a chapa do raio-x que tirou certa vez pensando que tinha tuberculose (estava certo de que seria a primeira vítima sulamericana da gripe aviária).
Quando Caio finalmente conseguiu que chovesse num dia em que tinha prevenidamente carregado consigo seu guarda-chuva preto, descobriu que a armação arriava com o vento (que não era fraco) e que os enormes corredores de água da rua serviam ao único propósito de encharcar os passantes quando acelerasse um veículo mais descuidado.
Nesse dia pensou que a ordem natural das coisas não estava muito acertada, entretanto, ao conferir o relógio de pulso com a informação da voz mecânica da companhia telefônica teve uma surpresa, que era agradabilíssima, isto é, um sinal muito bom, que era o momento exato de aderir ao horário de verão. Perdendo uma hora no relógio, Caio entendeu que a organização estava restabelecida. Dormiu tranqüilo, esperando seus pesadelos de costume (quedas em abismos rochosos, ovelhas antropofágicas sarcásticas, romances inusitados, lembretes lúcidos de que sonhava, possessões demoníacas, cruzeiros encalhados, sentir que tinha vestido as roupas do avesso). Acordou no corredor do sexto andar, com o jornal dominical aos pés, rindo de si mesmo. Anotou, na "Grande Lista de Tarefas Urgentes": trancar a porta e engolir as chaves.
Caio teve trabalhao para elaborar a explicação que deu ao gastroenterologista. Era amigo do chaveiro, enfim, não seria difícil arranjar-se.

5.9.07

08:23

Liana perdeu o ônibus outra vez. Fumou um cigarro de abrir o peito (o bar da esquina não vendia o lights), fechou o zíper do casaco de falso couro e pediu as horas a um senhor de bigode que também estava atrasado.
Já era hora de acontecer uma catástrofe e, sendo a desgraça um troço bastante pontual, foi mesmo naquele minuto que uma perua escolar derrapou na esquina e derrubou os cidadãos atrasando-os definitivamente.

13.6.07

Planos

"Não faça planos", Estela prosseguiu, "Pense só no que poderia fazer hoje". Victor pensou que era uma ótima idéia, sua experiência comprovava, sistematicamente, os desastres de querer adiantar as coisas. Não era capaz nem de fazer as compras semanais durarem o destino planejado de sete dias (sempre acabava tendo que voltar ao mercado para comprar mais queijo ou pão). Estela queria também dizer que ele precisava cortar o cabelo, comprar meias/cuecas novas, telefonar para a mãe, limpar o banheiro, querer ter filhos com ela. "Ah, Victor, o que você quer fazer hoje, afinal?" - Ela, Estela, de olhinhos firmes inquisidores. Ele, Victor, perdendo todos os sentidos, querendo ter filhos com Estela.

16.9.06

{Am}

A serpentina sempre foi uma palavra engraçada, especialmente se continha qualquer espécie de líquido dourado. Músicas em cordas de violão faziam as noites mais agradáveis. Azul índigo sempre foi a expressão mais misteriosa. Renato sentiu as gotas que iam de encontro aos seus ombros pontudos e foi quando a criança muda caiu em seus braços, que já formavam um tipo de colo, e se mexeu apenas um pouco até que suas costas deixassem de ser tão frias. Lembrou-se de filatelia e selos e gentes que procuravam de qualquer maneira olhos de boi estampados em pedaços de papel grudento. O violão continuava perseguindo suas noites engraçadas. Malditos estudantes de humanas. Paredes muito vermelhas contrastando com a pele branca de Beatrice. Viajaria alguns trinta e oito círculos infernais se fosse preciso para trazer a moça e alguns acordes adormecidos. Ainda assim, o exemplo nunca é necessário. Oras bolas, de quê mesmo é que falamos ?

30.5.06

Folhas contra o azul

Naquela manhã Helena gozou com raiva e esperou que as duas lágrimas escorressem pelo canto dos olhos até as orelhas, enquanto a imobilidade e a calcinha ainda abaixada conferiam à imagem algo de desprezível. Era a sua meditação contra as tensões internas, todo o lixo promocional, as lamentações e a autopiedade – seu gozo matinal. Ainda se lembrava como Tadeu inventava dedos em seu ventre e quase não acreditava em tanta admiração. Não tinha, de fato, motivos para crer; desconfiava com certa tranqüilidade de que ele repetia as invenções em dezenas de tantos ventres por aí. Helena sabia que os seus olhos não eram nem os maiores, nem a sua pele a mais generosa, nem os seus movimentos os mais lânguidos. O seu caminho não seguia em paralelas, estava apenas esperando pelo trem que talvez se atrasasse (agradavam-na as metáforas maquinais).
Já no seu limbo, triste e inerte, Helena pensava em deixar o momento de auto-comiseração pendurado junto ao sol que entrava agressivo pela janela, e assim o fez quando interrompeu as decisões para fazer com que a campainha do telefone cessasse de soar.
Era engano – foi obrigada a vestir novamente as calças (o que não fez inteiramente, deixando o zíper displicentemente escancarado), levantar-se para sentir o sol queimando o rastro do choro e tornar a planejar o dia. Lavou as mãos, prendeu os cabelos – gostava do aspecto que a tristeza deixava em suas bochechas – jogou um suspiro fora e esperou o meio-dia.

12.3.06

Iniciativa

As janelas da cúpula do alto do edifício mais importante da cidade tinham sido lavadas pela chuva. Da rua, plantado sobre o asfalto, Álvaro subia os olhos com o vapor até o significado de concreto; uma imponência opressora.
Atravessou a rua sentindo culpa por desafiar a faixa de pedestres e saber que não talvez não tivesse coragem de honrar as visíveis conseqüências de um atropelamento inevitável (imaginava-se preso a um leito de hospital, lençóis alvos - ótimo sabão em pó -, enfermeiras em uniforme-fetiche, suas pernas engessadas e suspensas por um aparelho interessante). A sua pressa fazia surgir uma raiva crescente de toda a gente lerda que desvia de óculos e mídias e placas de sujeitinhos desgraçados que COMPRAM OURO. Tinha assistido duas ou três vezes confusões terríveis com operações especiais anunciadas euforicamente por apresentadores de programas televisivos às seis da tarde - depois, é claro, de reportagens sobre carros sendo levados pelo alagamento e drogados alucinados que espancaram suas avozinhas.

Finalmente o outro lado. Uma calçada mais limpa, menos cheia de gente. Notava de primeira olhada a fila que se formava e que dobrava até o final do quarteirão - que não era nada curto. Todo o mundo desejava entrar na construção imponente, era a formação mais incrível que admirava desde as filas de recebimento em bancos e de compromissos nos escritórios da previdência pública. Ficou tanto tempo olhando o colosso que a raiva criada durante o caminho já tinha crescido até o seu tamanho - e ia superá-lo em breve. Álvaro calvo, pouco calmo, desencantado, cheio de contas na mão, cansou de esperar o tempo da morte e foi procurar a sua solução. Impressionou os jornais, entrou imediatamente para os anais e cuspiu nas rimas ridículas explodindo o prédio como uma intervenção divina. Transferiu as filas para os hospitais.

11.1.06

Veredicto

Então ficou decidido que todos os poços, por mais fundos e escuros que pudessem tornar-se, todos, absolutamente, seriam cobertos de mantéis de fazenda indiana dourada e vermelha para que se desviasse um pouco a luz dos buracos circulares de entrada que sugeriam uma curiosidade terrível e assim se pudesse evitar por algum tempo parte dos sonhos de que não nos lembramos e assaltos que nos puxam pelos cílios esperando alguma reação desesperada. Assim as imagens de sombras seriam tão banais quanto formigas e não haveria porquê -- por que enganar-se e evitar a solidão? -- fechar os olhos e temer; há nisto uma consequência interessante: trata-se de dormir sonos amalucados, com intervalos diários de tantas horas, enredos recordados e soluções mínimas, de que não se precisa e não se procura jamais.

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(houvesse um nome, seria lúcia)

13.12.05

uma heresia só

pedro era porteiro.
pedro, fornido, sobranceiro, vinha do alto da escada e gritava, com ar pesado: PRÓXIMO ! ! !
ele tinha orelhas gordas e todos os que se vinham confessar imaginavam baixinho como podia ser que o porteiro do céu tivesse orelhas obesas.

-- conferencista de nutrição francesa para a juventude irlandesa, comeu a irmã aos 14 anos, matava passarinho com espingardinha de chumbo, diretor da biblioteca nacional... ok, pode passar, mas deixe os livros no guarda-volumes.

o porteiro confiscava os livros porque não tinha o que fazer à noite, quando descansava, então, lia. se tivesse livro de sacanagem era melhor ainda - mas só para que ele pudesse pesquisar para os sermões, claro.

pedro colecionava selos e gostava de curtir a vida; até escreveu assim, num anúncio de jornal, num momento de solidão: que queria alguém que fosse alegre, atlético e gostasse de curtir a vida (ou: sacerdotolho lirical procura: mulher que goste de mozart, silêncio e sodomia).

era um pouco carrancudo, sério, tinhas os seus princípios e, embora deixasse passar alguns falsificadores (por causa dos selos), não gostava nada de pedófilos. por causa disso apanhou de muito padre na porta do céu.

pretendia, quando se aposentasse fazer uma banquinha para vender velhos artigos de luxo no primeira mão (sonhando): "vendo livros da biblioteca nacional, guardachuva da mary poppins, oscar de melhor ator 2001, manta sagrada e máquinas do tempo que deram errado".

um dia a vigilância sanitária veio e fechou os portões, porque algumas pessoas da fila reclamaram de ratos nos pastéis vendidos pelo feirante gabriel no carrinho que anunciava uma promoção interessante (dois pasté por três real e ganhe uma salvação de brinde).

a verdade é que pedro era um homem de negócios, profissional sacro-liberal. abriu um cinema ao lado do grande toalete celestial (hoje apresentando: manuscritos de sófocles. coroinha paga meia). como todo homem de negócios, exausto, morto de tanto imposto e de tanto sonegar um pouco.

foi assim, cansado, que pedro recebeu uma proposta - no dia em que madre tereza chegou com passe livre e não quis saber de conversa:

-- pedro, descanse um pouco, deixe a duodécima missa de mozart para amanhã. . . essas horas canônicas vão acabar com sua pele e deixá-lo com cabelo branco. bora fermentar licor.

- é preciso de um muquifo quente para fermentar esse troço... tereza, meu amor, vá lá no porão conversar com o coisa-ruim. . .

então foi, fazer licor de chocolate e misto de maionese pra vender na praia.

(assinado: o vila e eu)

30.10.05

em tempos.

Todos os dias, pela manhã, Dona Escarlatina sentia dores enigmáticas que brotavam de seu peito como quando era forçada a degustar a massa mais rica da cidade sob a vigilância de crianças sujas da rua. Para amenizar o sofrimento buscou auxílio que não lhe pudesse custar mais do que metade de uma nota de cem e, por isso, radiante, marcou presença avassaladora em uma livraria do subúrbio, devorando qualquer sobrenome garantido de alcova ou estante de trintonas cujos relógios biológicos as apavorassem.

Compareceu: elegantérrima, Maria das Dores, corada e rejuvenescida após tratamento intenso de verão com a Dra. Glória da clínica Spasso, ao coquetel de lançamento de Onde é que eu fui parar?, mais nova obra de Alcir Bufo, renomeado psicanalista e autor de estouros da auto-terapia.

Dona Escarlatina é um nome que me parece cair muito melhor, de forma que Maria das Dores sempre ofegante, apesar da pouca pressa, procurando onde decotar mais os seus trajes concebidos em alfaiatarias para gorduchas, soasse mais como uma alcunha para Sofredora e a mulher não era a vítima e mais uma destruidora! Perambulando pelos cantos da cidade com vestidos esvoaçantes misteriosos ela aparecia nas visões noturnas de cada marido descuidado, cujo bigode se balançava doidamente quando ela passava. É claro que as esposas fingiam não notar – muitas tinham ódio macilento e outras, mais curiosas, até achavam alguma graça naquilo tudo e esperavam o momento certo para sugerir brincadeiras sórdidas.

Era uma mancha de volúpia, como gostava de imaginar-se. Dona Escarlatina, arrebatadora, tinha tanto seio quanto desejasse um batalhão inteiro do exército e a carne se suas coxas serviria impecavelmente uma horda de guerrilheiros que tivessem se escondido por três dias nas florestas sêcas.
Um estrondo, rapazes.

Escândalo: Maria das Dores, descuidada, deixa aparecer o fundilho nesta festa, após já ter o rosto aquecido pelos calores da bebida. Ao fundo, os olhares de cobiça dos senhores da alta sociedade – que causaram muito tumulto à admiração das jovens damas de respeito.

Ela compreendia a sua função social; era o fim das noites solitárias dos rapazotes iniciantes e, para isto, deixava propositalmente uma fresta na janela do cômodo onde banhava-se diariamente; a fenda mais escancarada que já houve. Carlinhos, Alfredinho, Zequinha, Alfonsinho e todos os que um dia foram rapariguitos compartilharam daquele portal maravilhoso. Até que um dos garotos, por demais agitado, de tão feliz decidiu contar à mãe o presente da Maria das Dores. Nesta parte de nossa história é que se deve esquecer a escarlatina – Senhora Piedade. Como uma prostituta, assim é que se via Senhora Piedade a partir de então, cujos apelidos ultrapassavam todos os limites aceitáveis de cordialidade, não era senhora e tampouco piedade, era Maria, a puta.

- Muito obrigado, Neto. (dizia um, atordoado pelo fim do costume)
- Olha, vê que agora vai ficar muito mais criativo! (esse era o otimista, que mais tarde descobriria sua homossexualidade)
- Um dia a das Dores me convidou pra tomar chá com bolachas e… (este, o mentiroso)
- Ora, pervertidos! Não creio que tenham mesmo se aproveitado disto! (mais um, o hipócrita)

Enjaulada numa procissão individual, enfeitada como Maria Madalena, a puta, Maria, a outra puta, caminhava tranquila, as bochechas e o colo magnificamente corados, o traseiro ostentado respeitosamente, as unhas pintadas de vermelho-vinho, um olhar muito sábio escancarado no rosto. Segurava duas malas cheias com todas as suas coisas mais preciosas – lingeries bonitas, o retrato dos pais, roupas de algodão (para o calor) e de lã (para o frio), sapatos de rua e de alcova, robe de chambre amarrotado pela paixão, cartas de tantos amantes!, um cantilzinho repeto de uísque barato e sua poesia estampada em papéis amarelados.

- Adeus, que ainda há muito para amar.

26.10.05

hein?

ENTÃO foi que Josefina perdeu-se pelas fibras emaranhadas do tapete persa que jazia no colo absurdo de Daniel. Encontrou algumas pulgas, uns pedaços de papel envelhecido, certa algazarra por causa de um bicho morto. No meio da carcaça, três ou quatro formigas discutiam a hierarquização do sistema colonial e a sua crise funcional. Josefina agarrou-se à base de uma das fibras quando, violenta, a pulga mais gorducha saltitava procurando exatamente aquele pontinho quente de carne, de onde brotava uma veia bastante azulada e quente - QUANTA FOME, MEU DEUS!. Daniel, adormecido, não sentia nem cócegas da representação que se dava no seu peito; ao contrário, até estranhava a letargia. Já se fazia tarde quando a idéia Josefina decidiu voltar a si e abandonar a observação idiota:
- Ora, ora, Daniel, deixe de ser hippie e vá tomar um banho.

pronunciamento oficial

- Tínhamos grande pretensão em dizer por todos os lados quantas vezes foram ditas palavras sem conceito atrás de oratórios de mogno e sabíamos o imenso valor da vontade. Olha, não é que o principal objetivo é forjar um objetivo? Todas as informações sócio-econômicas, o ambiente individualista de um sistema propriamente vazio - diversas explicações absurdas e justificativas da psicanálise e da ciência social. Seria tão simples, caros, se apenas admitíssemos que não sabemos de nada.

27.9.05

Alegria

O ponto central aqui era discordar, quer dizer, cada afirmação tinha o poder impressionante de me fazer recuar até dizer o oposto com a maior convicção que esta minha cara lavada pode ter, isso sequer sem antes imaginar qual fosse a verdadeira opinião. Não vou buscar explicações deterministas para isso, veja bem, eu até que sou normal. Imaginemos que cada pavão aproveita a melhor oportunidade que souber avaliar quando se trata de parecer mais vistoso ao bando. Os bichos de penas menos brilhantes, imponentes; ah, esses se viram de outro jeito, não é? Afinal, as fêmeas gostam mesmo é de serem cortejadas, nada desse estufar de peitos imóvel de alguns pássaros pouco talentosos. Eu tenho talento, amigo, sei até mentir um pouco - tudo para contrariar. Olha, a Teresa podia vir conversar com você, te convencer do que eu estou dizendo (ninguém mais neste mundo pra entender tanto do meu galanteio (pena que não me quis de jeito nenhum)).

19.9.05

poeira morta

Ficou contando as horas longas durante as quais tinha assistido sem emoção alguma às flores que cresciam no jardim - eram muitas, já se ouvia o grito desesperado das cigarras e o zumbidinho incessante dum perninlongo insistente que vagava pelo quarto procurando calor. Na mesma conta quis arregalar os olhos ao considerar a assustadora constatação de que tinha passado todo aquele tempo sem fazer nada, mas as pestanas pesavam tanto que desistiu de levantá-las.
Ele deixou a janela com os cotovelos marcados e se arrastou com dificuldade ao sofá, suspirando longo como quem abandonou uma grande oportunidade ou esqueceu o bolo no forno para queimar. As suas idéias não paravam de girar e o dia inteiro tinha sido um grande sacrifício que não se podia sentir, impressionante como a gente fica tão cansado de ter que trabalhar as sessenta horas semanais que gasta todo o tempo livre com o tédio.
Os dedos dos seus pés se espremiam e esticavam sem intervalo, com aflição dos tiques que o relógio fazia sem piedade de ninguém. A visão do teto não agradava muito, lembrava os serviços pequenos que sobravam, o vencimento do aluguel por chegar, a culpa, a mediocridade, três pratos de trigo para três tigres tristes. Não faziam pausas os pensamentos tolos, ao contrário, cada final de frase ia se confundindo com outra e, em menos de um minuto, do lamento por causa da sorte era feito o belo piscar de olhos da vizinha do trinta e um.
Depois, ao telefone:
- Você tem café aí?
- Tenho, traz o filtro? - a voz sonolenta do outro, amigo de infância e vizinho, igualmente atarefado em divagações aleatórias completamente banais.
- Por quê é que a gente tem que acordar tão cedo, hein?
- Como é?
- Oito horas, quem definiu que o dia começa às oito? É muito cedo pra estar acordado.
- Mas hoje é feriado, cara.
- Tem leite aí?
- Tem, mas traz o filtro.
Nem os números no elevador colaboravam com a falta de vontade do rapaz. A conversa ao telefone atormentou ainda mais os seus sentimentos. Esforçando-se por andar depressa, entrou sem bater no apartamento do amigo.
- O precisar fazer as coisas é que me ilude e me deprime.
- Trouxe o filtro?
- Aqui, faz bem forte, tá? Põe umas cinco colheres de pó. Pouca água.
- Não sei nem que horas são, passei o dia comparando os bolores daquela minha parede infiltrada.
- O constrangimento dos afazeres, a minha ira e a minha preguiça...
- Vamos fazer um catálogo dessas coisas, que aflição, você falando bonito só porque é feriado.
- Pular de um penhasco, é por isso que fazem essas coisas; rapel, tirolesa, imagina a sensação de suicídio. Deu uma risada fixa, sentiu o cheiro de café e sorriu leve. - Luís, teu café é o melhor.
- Diretamente de Colômbia, amigo. Depois coloca um sapato e vamos sair, beber na rua com os cachorros.
Não respondeu, virou os olhos com um brilhozinho, apertou a boca e, erguendo os braços, bocejou feliz.

12.9.05

Sono

Sabe lá quantas horas eu deixei de dormir para ficar perdido aqui neste tédio, ouvindo os martelos ritmados do seu relógio-cuco tão conservador quanto o seu nome, Antonieta.
Passei a manhã recortando folhas novas de jornal e a tarde ignorando os âncoras engravatados, que me cansam de ter que ficar um pouco mais triste e quieto no fim das crianças mortas de fome e os muros da guerra sabendo que há quem ganhe medalhas sem que se compreenda nada - apenas se noticie.
Me pergunta a que vim, trouxe um pouco de ar fresco, não vou falar nada nada de nós. Eu tinha imaginado uma valsa na sua escada de mármore; quinze mil holofotes pendendo a partir do mofo do nosso teto e, ainda sim, Nina (como alcunha odiada) seus olhos não querem se desfazer das minhas saias roubadas das suas pernas frias.
Agora enquanto fechava as cortinas pude sentir as suas mãos pesadas e tive saudades de todos os nossos animaizinhos soltos como que fogo na vegetação seca e você não percebe nenhum deles! Todas as décadas que gravaram as suas letras em mim cantando melodias feitas às pressas e seguindo coreografias desconexas. Não vê que não há palavra dita para você que não se acompanhe de um outro par de frases enfeitadas?, necessário que lhe chamem a atenção.

9.9.05

Vigia

Sem hesitar nem um momentinho, Pereira, como gostava de ser chamado (por causa da imponência de um nome tão dolorosamente comum e naturalesco), acompanhou com os olhos a sacolejada que as saias coloridas de Selma faziam a cada passo lento em direção à porta. Parecia um aproveitar-se sórdido em saborear a visão traseira da moça comportada, enquanto ela lia desavisada um artigo em revista feminina - queria impressionar o namorado na cama.

A pontinha de sentimento cafajeste botava-o a suspirar; queria fazer-se notar por sua canalhice calva suada de funcionário de repartição. Por andar sonhando muito com cobras e serpentes coloridas, Pereira quis jogar no bicho e arranjou um número com o Sodré. No dia em que ganhou a bolada - cobra, claro! - o homem comprou um espaço no jornal agradecendo a Santo Expedito e, logo depois, inventou pra todo mundo da repartição que tinha começado um esquema de pirâmide.

Selma detestava-o, fazia cara de nojo quando via passar aquele corpinho redondo morto de calor num paletó escuro e sapatos com algum salto - e continuava baixinho!. O desprezo foi passando a piedade e, depois, admiração, quando ela ouviu (sem perceber a curiosidade ousada) uma conversa de Pereira com a mãe, que aparecia de vez em quando na repartição pra levar bolo de fubá no café da tarde. A moça apertou os olhinhos assim que a velha puxou a orelha do filho e, logo que viu umas lágrimas parecendo açúcar no rosto de Osvaldinho, engoliu uma risada maldosa e teve vontade de chorar também.

Por ter uma mãe assim, Pereira seguia com o hábito de depravar com o olhar o caminhar de Selma que, cada vez mais animada, vestia saias com motivos berrantes, só pra ver se atraía (por pena) a admiração sacana do seu protegido fraterno.

23.8.05

manhazinha besta

nicolau não miava muito e, três pratos de ração depois, deitou quase morto, com as patinhas molengas e a boca meio aberta. cecília estava retocando o vermelho do cabelo e achava graça na ganância do gato - continuava alimentando-o compulsivamente, mesmo que depois ele cuspisse tudo de volta (imaginava se era possível um animal de estimação bulímico). olhava para as roupas espalhadas pelo chão, cobrindo o abajur, penduradas na cadeira; sua mãe com cara de reprovação.
ela guardava uma gravura imantada na porta da geladeira que representasse o negro dos seus olhos, mas, sabe, já era dia vinte e era melhor se tentasse meditação indiana (não conseguia pensar em nada e já tinha se perguntado a razão da distração com a pintura das unhas, o feitio das sobrancelhas, se no final não a fazia mais bonita).
talvez aquilo de não acordar sem motivos fosse até bom, mas, primeiro, cecília com cara de lua mastigou um pacote inteiro de negresco acompanhado de leite desnatado (como é que alguém troca isso por leite de soja ? água por água, prefiro a da vaca), refestelou-se ao lado de nicolás falando francês e dormiu.