Ficou contando as horas longas durante as quais tinha assistido sem emoção alguma às flores que cresciam no jardim - eram muitas, já se ouvia o grito desesperado das cigarras e o zumbidinho incessante dum perninlongo insistente que vagava pelo quarto procurando calor. Na mesma conta quis arregalar os olhos ao considerar a assustadora constatação de que tinha passado todo aquele tempo sem fazer nada, mas as pestanas pesavam tanto que desistiu de levantá-las.
Ele deixou a janela com os cotovelos marcados e se arrastou com dificuldade ao sofá, suspirando longo como quem abandonou uma grande oportunidade ou esqueceu o bolo no forno para queimar. As suas idéias não paravam de girar e o dia inteiro tinha sido um grande sacrifício que não se podia sentir, impressionante como a gente fica tão cansado de ter que trabalhar as sessenta horas semanais que gasta todo o tempo livre com o tédio.
Os dedos dos seus pés se espremiam e esticavam sem intervalo, com aflição dos tiques que o relógio fazia sem piedade de ninguém. A visão do teto não agradava muito, lembrava os serviços pequenos que sobravam, o vencimento do aluguel por chegar, a culpa, a mediocridade, três pratos de trigo para três tigres tristes. Não faziam pausas os pensamentos tolos, ao contrário, cada final de frase ia se confundindo com outra e, em menos de um minuto, do lamento por causa da sorte era feito o belo piscar de olhos da vizinha do trinta e um.
Depois, ao telefone:
- Você tem café aí?
- Tenho, traz o filtro? - a voz sonolenta do outro, amigo de infância e vizinho, igualmente atarefado em divagações aleatórias completamente banais.
- Por quê é que a gente tem que acordar tão cedo, hein?
- Como é?
- Oito horas, quem definiu que o dia começa às oito? É muito cedo pra estar acordado.
- Mas hoje é feriado, cara.
- Tem leite aí?
- Tem, mas traz o filtro.
Nem os números no elevador colaboravam com a falta de vontade do rapaz. A conversa ao telefone atormentou ainda mais os seus sentimentos. Esforçando-se por andar depressa, entrou sem bater no apartamento do amigo.
- O precisar fazer as coisas é que me ilude e me deprime.
- Trouxe o filtro?
- Aqui, faz bem forte, tá? Põe umas cinco colheres de pó. Pouca água.
- Não sei nem que horas são, passei o dia comparando os bolores daquela minha parede infiltrada.
- O constrangimento dos afazeres, a minha ira e a minha preguiça...
- Vamos fazer um catálogo dessas coisas, que aflição, você falando bonito só porque é feriado.
- Pular de um penhasco, é por isso que fazem essas coisas; rapel, tirolesa, imagina a sensação de suicídio. Deu uma risada fixa, sentiu o cheiro de café e sorriu leve. - Luís, teu café é o melhor.
- Diretamente de Colômbia, amigo. Depois coloca um sapato e vamos sair, beber na rua com os cachorros.
Não respondeu, virou os olhos com um brilhozinho, apertou a boca e, erguendo os braços, bocejou feliz.