16.9.06
{Am}
A serpentina sempre foi uma palavra engraçada, especialmente se continha qualquer espécie de líquido dourado. Músicas em cordas de violão faziam as noites mais agradáveis. Azul índigo sempre foi a expressão mais misteriosa. Renato sentiu as gotas que iam de encontro aos seus ombros pontudos e foi quando a criança muda caiu em seus braços, que já formavam um tipo de colo, e se mexeu apenas um pouco até que suas costas deixassem de ser tão frias. Lembrou-se de filatelia e selos e gentes que procuravam de qualquer maneira olhos de boi estampados em pedaços de papel grudento. O violão continuava perseguindo suas noites engraçadas. Malditos estudantes de humanas. Paredes muito vermelhas contrastando com a pele branca de Beatrice. Viajaria alguns trinta e oito círculos infernais se fosse preciso para trazer a moça e alguns acordes adormecidos. Ainda assim, o exemplo nunca é necessário. Oras bolas, de quê mesmo é que falamos ?
30.5.06
Folhas contra o azul
Naquela manhã Helena gozou com raiva e esperou que as duas lágrimas escorressem pelo canto dos olhos até as orelhas, enquanto a imobilidade e a calcinha ainda abaixada conferiam à imagem algo de desprezível. Era a sua meditação contra as tensões internas, todo o lixo promocional, as lamentações e a autopiedade – seu gozo matinal. Ainda se lembrava como Tadeu inventava dedos em seu ventre e quase não acreditava em tanta admiração. Não tinha, de fato, motivos para crer; desconfiava com certa tranqüilidade de que ele repetia as invenções em dezenas de tantos ventres por aí. Helena sabia que os seus olhos não eram nem os maiores, nem a sua pele a mais generosa, nem os seus movimentos os mais lânguidos. O seu caminho não seguia em paralelas, estava apenas esperando pelo trem que talvez se atrasasse (agradavam-na as metáforas maquinais).
Já no seu limbo, triste e inerte, Helena pensava em deixar o momento de auto-comiseração pendurado junto ao sol que entrava agressivo pela janela, e assim o fez quando interrompeu as decisões para fazer com que a campainha do telefone cessasse de soar.
Era engano – foi obrigada a vestir novamente as calças (o que não fez inteiramente, deixando o zíper displicentemente escancarado), levantar-se para sentir o sol queimando o rastro do choro e tornar a planejar o dia. Lavou as mãos, prendeu os cabelos – gostava do aspecto que a tristeza deixava em suas bochechas – jogou um suspiro fora e esperou o meio-dia.
Já no seu limbo, triste e inerte, Helena pensava em deixar o momento de auto-comiseração pendurado junto ao sol que entrava agressivo pela janela, e assim o fez quando interrompeu as decisões para fazer com que a campainha do telefone cessasse de soar.
Era engano – foi obrigada a vestir novamente as calças (o que não fez inteiramente, deixando o zíper displicentemente escancarado), levantar-se para sentir o sol queimando o rastro do choro e tornar a planejar o dia. Lavou as mãos, prendeu os cabelos – gostava do aspecto que a tristeza deixava em suas bochechas – jogou um suspiro fora e esperou o meio-dia.
12.3.06
Iniciativa
As janelas da cúpula do alto do edifício mais importante da cidade tinham sido lavadas pela chuva. Da rua, plantado sobre o asfalto, Álvaro subia os olhos com o vapor até o significado de concreto; uma imponência opressora.
Atravessou a rua sentindo culpa por desafiar a faixa de pedestres e saber que não talvez não tivesse coragem de honrar as visíveis conseqüências de um atropelamento inevitável (imaginava-se preso a um leito de hospital, lençóis alvos - ótimo sabão em pó -, enfermeiras em uniforme-fetiche, suas pernas engessadas e suspensas por um aparelho interessante). A sua pressa fazia surgir uma raiva crescente de toda a gente lerda que desvia de óculos e mídias e placas de sujeitinhos desgraçados que COMPRAM OURO. Tinha assistido duas ou três vezes confusões terríveis com operações especiais anunciadas euforicamente por apresentadores de programas televisivos às seis da tarde - depois, é claro, de reportagens sobre carros sendo levados pelo alagamento e drogados alucinados que espancaram suas avozinhas.
Finalmente o outro lado. Uma calçada mais limpa, menos cheia de gente. Notava de primeira olhada a fila que se formava e que dobrava até o final do quarteirão - que não era nada curto. Todo o mundo desejava entrar na construção imponente, era a formação mais incrível que admirava desde as filas de recebimento em bancos e de compromissos nos escritórios da previdência pública. Ficou tanto tempo olhando o colosso que a raiva criada durante o caminho já tinha crescido até o seu tamanho - e ia superá-lo em breve. Álvaro calvo, pouco calmo, desencantado, cheio de contas na mão, cansou de esperar o tempo da morte e foi procurar a sua solução. Impressionou os jornais, entrou imediatamente para os anais e cuspiu nas rimas ridículas explodindo o prédio como uma intervenção divina. Transferiu as filas para os hospitais.
Atravessou a rua sentindo culpa por desafiar a faixa de pedestres e saber que não talvez não tivesse coragem de honrar as visíveis conseqüências de um atropelamento inevitável (imaginava-se preso a um leito de hospital, lençóis alvos - ótimo sabão em pó -, enfermeiras em uniforme-fetiche, suas pernas engessadas e suspensas por um aparelho interessante). A sua pressa fazia surgir uma raiva crescente de toda a gente lerda que desvia de óculos e mídias e placas de sujeitinhos desgraçados que COMPRAM OURO. Tinha assistido duas ou três vezes confusões terríveis com operações especiais anunciadas euforicamente por apresentadores de programas televisivos às seis da tarde - depois, é claro, de reportagens sobre carros sendo levados pelo alagamento e drogados alucinados que espancaram suas avozinhas.
Finalmente o outro lado. Uma calçada mais limpa, menos cheia de gente. Notava de primeira olhada a fila que se formava e que dobrava até o final do quarteirão - que não era nada curto. Todo o mundo desejava entrar na construção imponente, era a formação mais incrível que admirava desde as filas de recebimento em bancos e de compromissos nos escritórios da previdência pública. Ficou tanto tempo olhando o colosso que a raiva criada durante o caminho já tinha crescido até o seu tamanho - e ia superá-lo em breve. Álvaro calvo, pouco calmo, desencantado, cheio de contas na mão, cansou de esperar o tempo da morte e foi procurar a sua solução. Impressionou os jornais, entrou imediatamente para os anais e cuspiu nas rimas ridículas explodindo o prédio como uma intervenção divina. Transferiu as filas para os hospitais.
11.1.06
Veredicto
Então ficou decidido que todos os poços, por mais fundos e escuros que pudessem tornar-se, todos, absolutamente, seriam cobertos de mantéis de fazenda indiana dourada e vermelha para que se desviasse um pouco a luz dos buracos circulares de entrada que sugeriam uma curiosidade terrível e assim se pudesse evitar por algum tempo parte dos sonhos de que não nos lembramos e assaltos que nos puxam pelos cílios esperando alguma reação desesperada. Assim as imagens de sombras seriam tão banais quanto formigas e não haveria porquê -- por que enganar-se e evitar a solidão? -- fechar os olhos e temer; há nisto uma consequência interessante: trata-se de dormir sonos amalucados, com intervalos diários de tantas horas, enredos recordados e soluções mínimas, de que não se precisa e não se procura jamais.
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(houvesse um nome, seria lúcia)
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(houvesse um nome, seria lúcia)
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