17.2.08

Herança

A carta dizia:
Tenho pavor de morrer jovem. Não é por causa dos sonhos precocemente interrompidos, dos planos que foram arrasados, dos filhos que não foram feitos, das sementes nunca germinadas. Se eu morrer cedo, minhas coisas ficarão abandonadas e serão inevitavelmente investigadas por aqueles que eu deixaria. Todos os meus cadernos serão cruelmente violados com intenções inspiradas pelas saudades. Milhares de páginas, preenchidas de pensamentos tolos, centenas de meus desenhos escandalosos, todas as confissões que tentei disfarçar em personagens supérfluos de histórias inúteis, cada lamento que procurei misturar em metáforas pobres - nada repousaria sem o exame de olhos inquietos; tenho certeza de que não haveria respeito pelo meu silêncio fúnebre. Que imagem restaria de mim? Ainda assim, não tive coragem de queimar um rascunho sequer.

Foi o único papel que Rita, comovida, salvou do incêndio.