12.9.05

Sono

Sabe lá quantas horas eu deixei de dormir para ficar perdido aqui neste tédio, ouvindo os martelos ritmados do seu relógio-cuco tão conservador quanto o seu nome, Antonieta.
Passei a manhã recortando folhas novas de jornal e a tarde ignorando os âncoras engravatados, que me cansam de ter que ficar um pouco mais triste e quieto no fim das crianças mortas de fome e os muros da guerra sabendo que há quem ganhe medalhas sem que se compreenda nada - apenas se noticie.
Me pergunta a que vim, trouxe um pouco de ar fresco, não vou falar nada nada de nós. Eu tinha imaginado uma valsa na sua escada de mármore; quinze mil holofotes pendendo a partir do mofo do nosso teto e, ainda sim, Nina (como alcunha odiada) seus olhos não querem se desfazer das minhas saias roubadas das suas pernas frias.
Agora enquanto fechava as cortinas pude sentir as suas mãos pesadas e tive saudades de todos os nossos animaizinhos soltos como que fogo na vegetação seca e você não percebe nenhum deles! Todas as décadas que gravaram as suas letras em mim cantando melodias feitas às pressas e seguindo coreografias desconexas. Não vê que não há palavra dita para você que não se acompanhe de um outro par de frases enfeitadas?, necessário que lhe chamem a atenção.

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