As maiores aflições de Caio faziam parte de um universo simples das pessoas comuns. Ele nunca sabia para que direção deveria girar a torneira da água quente (aliás, já era para ele muito complicado adivinhar de onde viria a água morna, mesmo com as indicações claras de F e Q em letras pretas em fundo branco), irritava-se diariamente com a ordem correta em que deveria deixar os interruptores para que as luzes da sala de estar, do hall e da escada se apagassem ou acendessem simultaneamente, frustrava-se com a loteria que parecia vestir a meia ao pé adequado, zangava-se de todo, porque as chaves nunca descansavam no mesmo lugar.
Ele era daqueles que, preocupados, avisavam às aeromoças de que não sentiam-se capazes de realizar os procedimentos auxiliares necessários à abertura da saída de emergência localizada ao centro da aeronave em caso extraordinário.
Caio jogava na loteria em anos bissextos, em época de eclipse solar sempre perdia o horário e amargava com a chapa do raio-x que tirou certa vez pensando que tinha tuberculose (estava certo de que seria a primeira vítima sulamericana da gripe aviária).
Quando Caio finalmente conseguiu que chovesse num dia em que tinha prevenidamente carregado consigo seu guarda-chuva preto, descobriu que a armação arriava com o vento (que não era fraco) e que os enormes corredores de água da rua serviam ao único propósito de encharcar os passantes quando acelerasse um veículo mais descuidado.
Nesse dia pensou que a ordem natural das coisas não estava muito acertada, entretanto, ao conferir o relógio de pulso com a informação da voz mecânica da companhia telefônica teve uma surpresa, que era agradabilíssima, isto é, um sinal muito bom, que era o momento exato de aderir ao horário de verão. Perdendo uma hora no relógio, Caio entendeu que a organização estava restabelecida. Dormiu tranqüilo, esperando seus pesadelos de costume (quedas em abismos rochosos, ovelhas antropofágicas sarcásticas, romances inusitados, lembretes lúcidos de que sonhava, possessões demoníacas, cruzeiros encalhados, sentir que tinha vestido as roupas do avesso). Acordou no corredor do sexto andar, com o jornal dominical aos pés, rindo de si mesmo. Anotou, na "Grande Lista de Tarefas Urgentes": trancar a porta e engolir as chaves.
Caio teve trabalhao para elaborar a explicação que deu ao gastroenterologista. Era amigo do chaveiro, enfim, não seria difícil arranjar-se.
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Um comentário:
acabei de formular uma das vontades da minha vida. ver uma publicação dos seus escritos acompanhados de um dos meus velhos versinhos. vc realiza esse sonho?
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