Naquela manhã Helena gozou com raiva e esperou que as duas lágrimas escorressem pelo canto dos olhos até as orelhas, enquanto a imobilidade e a calcinha ainda abaixada conferiam à imagem algo de desprezível. Era a sua meditação contra as tensões internas, todo o lixo promocional, as lamentações e a autopiedade – seu gozo matinal. Ainda se lembrava como Tadeu inventava dedos em seu ventre e quase não acreditava em tanta admiração. Não tinha, de fato, motivos para crer; desconfiava com certa tranqüilidade de que ele repetia as invenções em dezenas de tantos ventres por aí. Helena sabia que os seus olhos não eram nem os maiores, nem a sua pele a mais generosa, nem os seus movimentos os mais lânguidos. O seu caminho não seguia em paralelas, estava apenas esperando pelo trem que talvez se atrasasse (agradavam-na as metáforas maquinais).
Já no seu limbo, triste e inerte, Helena pensava em deixar o momento de auto-comiseração pendurado junto ao sol que entrava agressivo pela janela, e assim o fez quando interrompeu as decisões para fazer com que a campainha do telefone cessasse de soar.
Era engano – foi obrigada a vestir novamente as calças (o que não fez inteiramente, deixando o zíper displicentemente escancarado), levantar-se para sentir o sol queimando o rastro do choro e tornar a planejar o dia. Lavou as mãos, prendeu os cabelos – gostava do aspecto que a tristeza deixava em suas bochechas – jogou um suspiro fora e esperou o meio-dia.
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2 comentários:
vou organizar um sarau sarado no morro do Macaco! conto com a sua presença!
Eu li.
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