12.3.06

Iniciativa

As janelas da cúpula do alto do edifício mais importante da cidade tinham sido lavadas pela chuva. Da rua, plantado sobre o asfalto, Álvaro subia os olhos com o vapor até o significado de concreto; uma imponência opressora.
Atravessou a rua sentindo culpa por desafiar a faixa de pedestres e saber que não talvez não tivesse coragem de honrar as visíveis conseqüências de um atropelamento inevitável (imaginava-se preso a um leito de hospital, lençóis alvos - ótimo sabão em pó -, enfermeiras em uniforme-fetiche, suas pernas engessadas e suspensas por um aparelho interessante). A sua pressa fazia surgir uma raiva crescente de toda a gente lerda que desvia de óculos e mídias e placas de sujeitinhos desgraçados que COMPRAM OURO. Tinha assistido duas ou três vezes confusões terríveis com operações especiais anunciadas euforicamente por apresentadores de programas televisivos às seis da tarde - depois, é claro, de reportagens sobre carros sendo levados pelo alagamento e drogados alucinados que espancaram suas avozinhas.

Finalmente o outro lado. Uma calçada mais limpa, menos cheia de gente. Notava de primeira olhada a fila que se formava e que dobrava até o final do quarteirão - que não era nada curto. Todo o mundo desejava entrar na construção imponente, era a formação mais incrível que admirava desde as filas de recebimento em bancos e de compromissos nos escritórios da previdência pública. Ficou tanto tempo olhando o colosso que a raiva criada durante o caminho já tinha crescido até o seu tamanho - e ia superá-lo em breve. Álvaro calvo, pouco calmo, desencantado, cheio de contas na mão, cansou de esperar o tempo da morte e foi procurar a sua solução. Impressionou os jornais, entrou imediatamente para os anais e cuspiu nas rimas ridículas explodindo o prédio como uma intervenção divina. Transferiu as filas para os hospitais.

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